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D. Pedro II (1825-1891) |
O dia 2 de Dezembro é conhecido nacionalmente como "dia do astrônomo". Esse é também o dia de nascimento de Pedro de Alcântara ou D. Pedro II que é reconhecido (merecidamente) como patrono da astronomia brasileira. Sempre nesse dia surge a dúvida se a comemoração deve incluir não somente os astrônomos profissionais, mas os amadores também. Para tentar resolver a dúvida, devemos antes discutir um pouco o significado próprio dos nomes usados para designar a ciência da astronomia e a prática da observação dos céus "sem compromisso", como realizada por amadores.
Por que a ciência que estuda fenômenos ou ocorrências relacionados à vida se chama "biologia", e aquela que estuda fenômenos e ocorrências relacionados aos astros se chama "astronomia"? Além disso, não se fala em uma "física amadora" ou uma "biologia amadora"; não se ouve falar (em clubes) de "físicos amadores" ou "biólogos amadores"... então, por que existiria "astronomia amadora" ?
Por que a ciência que estuda fenômenos ou ocorrências relacionados à vida se chama "biologia", e aquela que estuda fenômenos e ocorrências relacionados aos astros se chama "astronomia"? Além disso, não se fala em uma "física amadora" ou uma "biologia amadora"; não se ouve falar (em clubes) de "físicos amadores" ou "biólogos amadores"... então, por que existiria "astronomia amadora" ?
A julgar pela disposição das palavras, o certo seria substituir "astronomia" por "astrologia" (no mesmo sentido de "biologia"), enquanto o significado presente de "astrologia" deveria ser "astromancia" (de 'mancia' que significa "adivinhação", ou seja, a astromancia seria a prática da adivinhação futura pela observação dos astros). O mesmo ocorre com o uso do termo "astrônomos amadores" para designar pessoas que têm interesse diletante pelos astros.
De fato, a astronomia amadora nada tem de científica na acepção correta desse termo, porque a atividade dos "astrônomos amadores" apenas guarda com os astrônomos profissionais o objeto da observação dos astros. Astrônomos amadores, com raríssimas exceções, não estão envolvidos com o desenvolvimento ou exploração ativa de um paradigma científico ou das teorias criadas para explicar fenômenos celestes.
De fato, podem-se destacar três "áreas de atuação" para astrônomos amadores:
- Especialização na aquisição de imagens de corpos celestes por meio de equipamentos construídos amadoristicamente ou adquiridos no mercado. São os "imagers" em inglês;
- Dedicar-se ao ensino e divulgação de astronomia para crianças, jovens e adultos;
- Colaborar com alguma campanha de observação no levantamento de dados em rede para uso de profissionais (estrelas variáveis, cometas, análise de dados online de projetos de 'big science": telescópios espaciais etc) ;
Recentemente, surgiu uma quarta classe de "interessados em astronomia", que não observam nada no céu, mas que passam horas na frente de computadores replicando mensagens e textos de material sobre astronomia e imagens astronômicas. Com o advento das redes sociais, houve crescimento exponencial de imagens astronômicas artificiais ou não, replicadas ad nauseam sem qualquer compromisso com o conhecimento científico: são as curiosidades que servem para atrair seguidores. De qualquer forma, a chance de uma contribuição efetiva ao progresso da ciência astronômica só parece relevante com o terceiro grupo listado acima e, mesmo assim, na dependência das descobertas serem validadas por algum profissional.
Apenas porque têm um interesse diletante pelo céu, quando chegam mesmo a desenvolver algumas técnicas de observação, ou se valem de recursos tecnológicos semelhantes aos de astrônomos profissionais, não os classifica no mesmo patamar de atividade desses últimos.
Porém, muitos diletantes em astronomia amadora acabam fazendo eco a vozes de um cientificismo ingênuo de nossa época e pregam uma "religião cética", quando se empolgam na extrapolação das descobertas específicas da ciência astronômica para qualquer outro fenômeno. Entretanto, ciência de verdade nada tem a ver com esse cientificismo. Ciência é uma atividade complexa, que exige anos de treinamento e dedicação e que não se resume a tirar algumas fotos do céu ou fazer um relatório de observação descompromissado com o rigor exigido pela metodologia de observação.
Porém, muitos diletantes em astronomia amadora acabam fazendo eco a vozes de um cientificismo ingênuo de nossa época e pregam uma "religião cética", quando se empolgam na extrapolação das descobertas específicas da ciência astronômica para qualquer outro fenômeno. Entretanto, ciência de verdade nada tem a ver com esse cientificismo. Ciência é uma atividade complexa, que exige anos de treinamento e dedicação e que não se resume a tirar algumas fotos do céu ou fazer um relatório de observação descompromissado com o rigor exigido pela metodologia de observação.
Mas, existiria um nome mais preciso para designar a prática da astronomia amadora conforme as três classes descritas acima? Uma boa sugestão seria talvez um neologismo como "astrofilia": astrônomos amadores seriam "astrófilos" ou praticantes da "astrofilia" (sem o termo amador adicional, 1). A tarefa mais nobre a que astronomos amadores ou "astrófilos" poderiam se dedicar é, sem dúvida, a divulgação da própria astronomia como ciência, desprovida de aparências de cientificismo ingênuo. Alimentar a juventude com o verdadeiro espírito da ciência pela observação do céu ainda não recebeu, no mundo, a verdadeira valorização. Essa é, porém, a coisa mais importante que os amadores podem fazer, repetimos.
O fato é que, consagrado pelo uso e sem nenhuma referência à lógica da semântica original dos radicais, a atividade de "astronomia amadora" está incorporada em parte ao imaginário popular como uma prática científica, mas ela verdadeiramente não é. Isso não muda em nada o fato de que as comemorações do dia 2 de dezembro devem, merecidamente, abarcar todos os interessados, sejam eles profissionais ou meros amantes do céu.
O fato é que, consagrado pelo uso e sem nenhuma referência à lógica da semântica original dos radicais, a atividade de "astronomia amadora" está incorporada em parte ao imaginário popular como uma prática científica, mas ela verdadeiramente não é. Isso não muda em nada o fato de que as comemorações do dia 2 de dezembro devem, merecidamente, abarcar todos os interessados, sejam eles profissionais ou meros amantes do céu.
Referências
(1) Esse nome parece ter sido adotado por amadores italianos. Ver http://www.astrofili.org/
Sensacional.
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