02 abril 2019

Tenha seu observatório solar em casa

Fig. 1 Filminho do sol feito pelo autor deste blog que mostra a evolução de uma mancha solar, em luz visível entre 21/3/19 a 23/3/19, usando o Heliviewer. Para assistir ao filme acesse  https://helioviewer.org/?movieId=X1p75
Uma interface web de uma nova janela para o sol.
Observar o sol requer inúmeros cuidados. O problema maior, sem dúvida, é o excesso de luz, que é bastante prejudicial aos tecidos da retina no olho. Por isso, equipamentos para observar o sol são bem caros. Além disso, a observação do sol é mais interessante em outras faixas do espectro solar e não apenas no visível. Um telescópio solar para observar essas faixas se parece mais com um rádio em que o observador conseque "sintonizar" um canal e ver o sol em uma determinada frequência. A grande vantagem de observar o sol é que essa é uma atividade que pode ser feita durante o dia, quando a temperatura é maior do que a noite.

Por causa disso, também, observatórios solares devem se localizar em regiões de elevada altitude, para que a atmosfera terrestre e o calor não atrapalhem as observações. Idealmente, assim, telescópios solares devem se localizar muito acima das camadas mais inferiores da atmosfera terrestre. Para todos os fins práticos, o lugar mais ideal é o espaço, longe da Terra. 

Os avanços da tecnologia espacial permitiram o lançamento de satélites especiais para observar o sol. Esse são dispositivos em órbita cujas "cargas úteis" são verdadeiros observatórios solares. Juntamos a isso um banco de imagens, onde os mais finos detalhes do sol, observados bem longe da influência da atmosfera terrrestre, são registrados de forma sistemática. Adicionamos ainda a possibilidade de baixar essas imagens por meio da internet e o que temos?

O Helioviewer

Uma ferramenta versátil, que permite amplas pesquisas e acompanhamento do sol, em segurança e de vários pontos de vista ao redor dele é o Helioviewer. Trata-se de um vasto repositório de imagens do sol atualizadas, coletados por uma série de sensores em órbita do sol - em pontos estáveis no sistema solar - e que permitem ter uma visão dinâmica do sol sem sair de casa e sem usar nenhum recurso, exceto pelo seu terminal e conexão com a internet. 

Em sua versão para desktop, ele contem um grande número de opções de busca, na forma de diferentes "canais" do espectro - a maioria invisíveis aos sentidos humanos. O mais difícil, no manejo da ferramenta, é certamente escolher os sensores. Para quem está acostumado a observar o sol na faixa do visível, basta selecionar o sensor SDO-HMI na primeira aba à esquerda. A versão default não contém fusão de imagens, de forma que o disco solar nessa faixa pode ser contemplado escolhendo essa opção como mostrado na Fig. 2. A sigla "HMI" é de "Human Machine Interface" e "SDO" é para "Solar Dynamics Observatory", o sensor espacial responsável pela imagem do disco.

Fig. 2 Tela da ferramenta Helioviwer mostrando o "canal" visível através do sensor SDO-HMI no dia 27/3/2019. As abas à esquerda permitem selecionar diversos "canais" a partir dos sensores disponíveis. 
A busca por imagens é feita em uma aba inicialmente oculta na parte centra inferior chamado "Image Timeline". Clicando-se em cada sequência, é possível selecionar o conjunto de imagns que se quer mostrar do sol para uma determinado dia. 

Coisas muito interessantes podem ser feitas pelo Helioviewer, o que torna a observação do sol algo bastante dinâmico e muito atraente, principalmente quando o sol se mostrar mais ativo. Por exemplo, a Fig. 3 mostra duas imagens de uma região ativa no dia 22/3/2019. Na parte superior é a imagem do visível (SDO/HMI). Na parte inferior selecionamos em "measurement", o tipo "magnetogram". Trata-se de um sensor capaz de medir e apresentar visualmente a intensidade dos campos magnéticos flutuando na superfície do sol. As regiões escuras são de campo magnético de uma polaridade, as claras, com polaridade inversa. Isso mostra que as manchas solares são regiões de alta intensidade de campo magnético, que resfria e torna, portanto, menos luminosa a fotosfera, que é a própria manifestação da mancha.

Fig. 3 Grupo de manchas solares próximas do limbo do sol em 22/3/19 (em cima) geradas pelo Helioviewer. Sua imagem magnética (embaixo), isto é, um magnetograma indicando a direção das linhas de campo magnético nessa região ativa. Esses campos magnéticos esfriam a superfície, gerando o aparecimento das manchas. 
Uma confirmação disso pode ser visto observando a mesma região, escolhendo o sensor SDO-AIA na medida (ou canal) 171, conforme mostrado na Fig. 4. Essa figura é a versão feita por esse canal especial que mostra tubos de plasma conectando a regiões magnéticas ativas. Como as polaridades são invertidas, o campo magnético se extende ao espaço, e rios de matéria ionizada acompanham esses campos, gerando as estruturas em arco que se extendem pelo espaço, como vistas na Fig. 4. 

Fig. 4 Grupo de manchas da Fig. 3 observado no canal 171. Os tubos de plasma que conectam regiões de campo magnético de polaridade diversa (conforme mostrado pelo magnetograma da Fig. 3), são claramente vistos.

Filmes da superfície do sol

Aspectos relevantes do sol são compreendidos ao se sequenciar imagens que permitem uma visão dinâmica de seu comportamento. Aparentemente, todos os canais ou filtros da ferramenta Helioviewer agrupam imagens em sequência gerando filmes. Para isso, usamos a ferramenta "Generate a Movie" no canto superior direito. Inicialmente, o  usuário deve clicar em "Select a view" para selecionar uma região específica e, na janela de escolha de intervalo de tempo, a data inicial e final do filme a ser criado. As saídas dos filmes podem ser feitas para o Youtube, geradas na forma de GIFs animados ou simplesmente exibidas por meio de um link. Por exemplo, a evolução do canal 171 da Fig. 4 pode ser vista para certo intervalo de tempo no link: https://helioviewer.org/?movieId=y1p75 

Um grupo de manchas pode ser visto surgindo neste filme https://helioviewer.org/?movieId=spp75, obtido no dia 31/3/19.

Fig. 5 Filme gerado para o grupo de manchas da Fig. 3, mostrando a evolução dinâmica de eventos na superfíie do sol. Esse filme pode ser acessado no link https://helioviewer.org/?movieId=y1p75 
Fenômenos diversos, mas associados entre si, podem ser observados dia após dia, permitindo uma compreensão mais profunda de eventos que ocorrem no sol ou na sua vizinhança.  Um exemplo interessante é de parte da coroa solar como visto na Fig. 6, que mostra também a fusão (merge) de duas imagens. Em vermelho está uma parte da coroa, numa imagem fornecida pelo coronógrafo SOHO (LASCO, Large Angle and Spectrometric Coronagraph) junto à uma imagem em amarelo do sensor SWAP 174. Na parte direita superior, basta selecionar "Lasco C2" para se ter essa visão do sol em 27/3/2019.

Fig. 6 Imagem de 27/3/209 de parte da coroa solar (via SOHO-LASCO) superimposta ao seu disco (SWAP 174 Proba 2)

Onde estão localizados os sensores

Os principais sensores do Helioviewer são o SDO, SOHO, Stereo-A e Stereo-B, além de outros. O sensor SDO está localizado em uma órbita geosíncrona, ou seja, em uma órbita cujo período é comensurável com o da rotação da Terra e com link direto para seu apoio de solo em Whitesands/EUA.

O sensor SOHO (Solar and Heliosferic Observatory) está posicionado em uma órbita do tipo "Halo" ao redor do sol praticamente fixo em relação a Terra - ou seja, ele se localiza ao longo da linha que liga o sol a Terra em um ponto de Lagrange. 

Stereo A e B são dois sensores localizados muito longe da Terra e em órbita do sol conforme mostra a Fig. 7. Compartilham com a Terra uma órbita comum, porém estão atrasados ou adiantados em relação à Terra, fornecendo imagens complementares de toda a superfície do sol. Também estão localizados em distintos pontos de Lagrange.

Fig. 7 Diagrama esquemático da posição dos sensores Stereo A e B que integram o Helioviwer. Image: Stereo Science Center (https://stereo-ssc.nascom.nasa.gov/where.shtml)
Outras características

Algumas ferramentas de análise de imagem estão disponíveis no canto inferior esquerdo. Elas servem para indicar ao usuário a existência de regiões ativas, buracos coronais, ejeções de massas coronais, flares (explosões fotosféricas) e inúmeros outros eventos, o que era antes feito por meio de olhos humanos treinados. É possível superimpor essas indicações de fenômenos nos filmes. Para isso, basta escolher a característica e selecionar no painel indicado.

Dúvidas podem ser sanadas no tutorial do Helioviewer, disponível no canto superior direito. Um "User Guide" está disponível no endereço:


Em conclusão

A observação do sol sempre foi uma ciência empírica por excelência. Nosso conhecimento do sol depende severamente do acúmulo de images ou registros dele, o que só pode ser feito em longo prazo. A ferramenta online Helioviewer (e seu homônimo como software standalone JHelioviewer) são ferramentas de pesquisa solar colocadas inteiramente à disposição do público e, portanto, à comunidade de astronomia amadora. A principal vantagem do Helioview, além da posição estratégica em que seu sensores se localizam, é o registro sistemático, quase que em tempo real da superfíci do sol e suas cercanias, em várias frequências. Sua versão "web" (diferentemente do JHelioviewer) parece ser mais simples de manusear. 

A observação de eventos de curto prazo no sol pode ser decisiva para se mitigar riscos associados às desgraças que uma explosão solar de grandres proporções poderia gerar na Terra. Será particularmente interressante acompanhar o sol principalmente nos períodos de maior atividade. Nesse sentido, a comunidade amadora poderá utilizar o Helioviewer em suas várias versões para complementar estudos do sol feitos com telescópios terrestres. 

Referências

Müller, D., et al. "JHelioviewer-Time-dependent 3D visualisation of solar and heliospheric data." Astronomy & Astrophysics 606 (2017): A10.

Hughitt, Vincent K., et al. "Helioviewer. org: browsing very large image archives online using JPEG 2000." AGU Fall Meeting Abstracts. 2009.

Hughitt, V. K., et al. "Helioviewer: A web 2.0 tool for visualizing heterogeneous heliophysics data." AGU Fall Meeting Abstracts. 2008.

Alguns dos vídeos podem ser assistidos via Youtube




16 março 2019

Faça o seu próprio globo "Clementine" da lua


Existem muitos modelos de 'globos da Terra' para comprar, mas e da lua? Algumas empresas fabricam globos lunares em plástico, e é possível encontrar outros vendidos no mercado pela internet. O que talvez poucos sabem é que é possível fazer o seu próprio. Para isso, é preciso improvisar um pouco.

Há um site antigo, o "vendian.org", que disponibiliza imagens renderizadas das superfícies dos planetas e da lua e que podem ser usados para fazer o seu próprio globo lunar. E, ao invés de comprar, fazer um é uma exelente atividade com as crianças. Uma outra vantagem é que, depois de fazer um da lua, é posível fazer de outros planetas, baixando as superfícies do mesmo site.

É preciso um jeito de fazer com que um mapa impresso em uma superfície plana se adapte a uma superfície curva. A figura abaxo mostra a primeira imagem (há mais duas) do "modelo de gomos" da superfície lunar disponível na referência citada, que permite fazer essa aproximação.

Fig. 1 Parte 1 do "modelo em gomos"  com 480 x 720 pixels, disponível no site vendian.org, e que foram gerados para uma rendereização da superfície lunar. Essa imagem e outras deverão ser impressas em uma folha de pape fino com dimensão apropriada para ser colocada de polo a polo na superfície do modelo.
As três sequências de gomos totalizam 12 seções. Elas podem ser acessadas diretamente no site nos links abaixo:

Parte 1 (Fig. 1)

IMPORTANTE: antes de imprimir é preciso ter a superfíce onde os gomos serão colados. É possível colar sobre uma em esfera de isopor (como as ilustradas na Fig. 2, que são vendidas em diversos tamanhos). Com o globo em mãos, é preciso conhecer seu diâmetro. Uma esfera e 100 mm de diâmetro é ideal para a impressão da superfície como mostrada na Fig. 1. 

Obs.: Não recomendo usar globos muito grandes (p. ex, de 25 cm de diâmetro), pois a imagem da Figura 1 está em baixa resolução, o que poderá afetar a qualidade da imagem impressa em maior escala.

No caso que descrevo aqui, colei cada seção diretamente sobre um globo terrestre de plástico de 11 cm de diâmetro (ver Fig. 3), que é facilmente comprado em papelarias. Já montei um em isopor, mas a superfície não é rígida, de forma que sua durabilidade é menor. Outra vantagem de se usar pequenos globos terrestres em plástico é que é possível aproveitar o suporte.

Fig. 2 Esferas de isopor que podem ser usadas
para se montar o globo lunar.
Obviamente, a imagem está descrita em pixels e deverá ser colada a uma superficie que tem uma dimensão própria. Se temos, p. ex., uma esfera de 110 mm de diâmetro (como é o caso do meu globo de plástico), foi necessário ajustar o tamanho da impressão. Isso pode ser feito inserindo a imagem em um software de edição de texto (p. ex., o MS Word). No caso, a altura da imagem em centímetros deverá ser igual a πD/2, sendo D é o diâmetro do globo. Para um globo com 11 cm de diâmetro, a altura resultante é 17,3 cm. Mas, como o papel tem certa espessura, adicionei mais 1 mm na altura e o resultado foi uma impressão com 17,4 cm de altura. Entretanto,  a diferença de até 1 mm não é muito crítica.

IMPORTANTE: No ajuste da imagem, o leitor deverá FIXAR a razão de aspecto ou proporção entre largura x altura, de forma que a imagem seja reproduzida na mesma razão da original, conforme a altura desejada. Isso é muito importante porque, caso a razão mude, quando cada seção for colada, elas ou não cobrirão totalmente a superfície ou ficarão sobrando. O trabalho terá que ser refeito!


Fig. 3 Imagem do pequeno globo terrestre de 11 cm de diâmetro que foi "sacrificado" para a montagem. Cada seção da superfície deverá ser recortada e colada exatamente na sequência em que é apresentada.
Colando as seções

O processo de colagem é razoavelmente simples (ver Fig. 4), mas o leitor deverá cuidar para encaixar cuidadosamente as seções e não deixar espaços entre as fronteiras de cada uma delas. Se a impressão for feita no tamanho correto, as seções se fecharão perfeitamente, cobrindo todo o globo.

Para realizar a colagem, foi usada cola de papel. O alinhamento deve ser feito conforme cada centro do polo, para evitar problemas de encaixe. Atenção, não inverter norte com sul em cada seção! Você também tem que prestar atenção na ordem com que cada seção ou gomo é colada, que é muito importante para garantir a fidelidade final da superfície reproduzida. Para evitar esses problemas, o que fiz foi só recortar um outro gomo e colar depois que tivesse já colado um anterior. É possível recortar todos primeiro, mas eles terão que ser numerados (no verso) para evitar embaralhamento.


Fig. 4 E a Terra se transforma na lua... Deve-se colar cada seção de forma cuidadosa para evitar desalinhamento.

O resultado final pode ser visto na primeira imagem deste post. Tal como no caso da lua de verdade, não há marcas dos acidentes nas imagens da Fig. 1. É possível, porém, ter uma boa ideia da superfície da lua, principalmente de seu lado oculto com esse pequeno modelo. 

Curiosidade: as imagens que servem de modelo para as seções foram geradas por dados missão Clementine da NASA, por isso, eu o chamo de "globo Clementine da lua".

Materiais
  • Cola de papel
  • 3 Folhas de papel
  • 1 Impressora para impressão das seções da lua
  • 1 Esfera de isopor ou de plástico (ideal com aproximadamente 10 cm de diâmetro)
  • 1 Tesoura
Referência

http://www.vendian.org/mncharity/dir3/planet_globes/

09 janeiro 2019

Existem provas do heliocentrismo?


“Chi non conosce la verità è sciocco, 
ma chi pur conoscendola la chiama menzogna è un criminale.” 
Galileo Galilei 
De tempos em tempos, surgem revoltas em comunidades inteiras, hoje em dia grandemente aumentadas pela internet, vídeos do youtube e outras mídias sociais. Grupos imensos, desprovidos do tempo necessário para aprender corretamente a ciência e sedentos de conhecimento, são tomados de assalto por supostos especialistas que, na ânsia de verem seus pontos de vista aceitos, acabam por polemizar em torno de assuntos sobre os quais nada sabem.  Muitos desses assuntos são temas que já foram resolvidos cientificamente faz tempo. Um caso recente é o do Sr. Olavo de Carvalho (OdC) que, em um video diponível do youtube afirma [1]:
"O fato é que, no confronto entre geocentrismo e heliocentrismo, não existe nenhuma prova definitiva nem de um lado nem do outro; e você pode usar um sistema de referência como pode usar o outro."
Como evidência, OdC cita uma certa carta de Alexander von Humboldt (1769-1859) que, segundo OdC teria escrito o seguinte [1]:
"Olha, nós todos sabemos que não existe a menor prova do sistema Copernicano, do sistema Heliocêntrico, todos nós sabemos disso, mas eu não quero ser o primeiro que diz isso em público; então, se aparecer algum cientista corajoso e disser isso, eu também vou apoiá-lo, mas eu serei o segundo no comando e não o primeiro, porque eu não quero levar todos os tomates."
Não obstante a possível afirmação de Humboldt [2], o "Astronomia Prática" traz aqui um resumo didático das provas do helicentrismo, seguindo essa nomenclatura de debate caduco, de forma a improvisar alguns desses tomates que nos parecem bem merecidos. 

Explicar sobre qual "sistema do mundo" estaria certo em pleno Séc. XXI é um interessante exercício educacional. Mas isso não se dá por impulso de um fenômeno exclusivamente brasileiro.  Em uma peça de propaganda apressada, o filme "The Principle" [2b] busca resgatar a tradição de imaginar que a Terra é um planeta especial, o que anima a esperança, entre ignorantes pretenciosos [2c], de resgatar o Geocentrismo do "erro histórico" de ter sido abandonado. Como é muito mais fácil acreditar que a verdade se acha facilmente em um filme do que na dura e lenta labuta do trabalho científico, multidões são assim facilmente alienadas internacionalmente. 

As provas do heliocentrismo

Parte do problema é que muitas das provas a favor do heliocentrismo hoje em dia são consideradas tão simples e óbvias (para estudantes de Astronomia ou Física), que elas sequer são consideradas como tal. Chegamos a esse estado de coisa em parte por falha no próprio sistema de ensino que não tem interesse ou ímpeto em explicitar essas evidências, pelo menos não em termos de debate caduco "Helicentrismo x Geocentrismo", já que o movimento da Terra é assunto resolvido entre os que ensinam ciências. 

Em ciência, podemos resumidamente classificar o que se chamama de "provas" em dois tipos:
  • Provas diretas: aquelas que podem ser investigadas experimentalmente, com base nos sentidos propriamente ditos ou em instrumentos, que nada mais são do que dispositivos ou ferramentas que amplificam os sentidos humanos;
  • Provas indiretas: de caráter epistemológico - ou seja, ligados ao conhecimento - são evidências colhidas a partir de dados científicos não diretamente ligados ao fenômeno a ser observado, mas que só podem ser entendidas se determinada teoria ou paradigma científico estiver correto. Em outras palavras, as provas indiretas justificam indiretamente esses paradigmas.
Há determinados assuntos em ciência que só podem apresentar provas indiretas (como é o caso da cosmologia - não temos acesso direto ao começo do universo). No caso do helicentrismo, as provas são dos dois tipos. 
I - O PARALAXE ESTELAR

Fig. 1 Animação produzida por R. Pogge [3] mostrando 
o paralaxe de uma extrela próxima e distante da Terra. 
Como a Terra gira em torno do sol, (e não o contrário) 
observamos o movimento anual das estrelas próximas
contra o fundo de estrelas muito mais distantes. 

Se o geocentrismo estivesse certo - a saber, se a  Terra estivesse imóvel - ela também estaria em relação às chamadas "estrelas fixas". Não se esperaria nenhum movimento aparente das estrelas mais próximas contra um fundo ainda mais distante de astros, visto que a Astronomia já demonstrou faz tempo que as estrelas não estão "fixas" em uma abóbada (os limites do "Empíreo" conforme ensinava os antigos). Curiosamente, uma parte das estrelas - a saber, aquelas que estão mais ou menos próximas de nós, apresentam uma interessante "dança" nos céus, movem-se em circulozinhos ou pequenas elipses com um período exatamente igual ao de revolução da Terra em torno do Sol (Fig. 1), e em coordenação com esse movimento. Tal deslocamento se dá em relação a estrelas que estão muito mais distantes (cujos círculos também existem, mas que são tão pequenos que não podem ser detectados pelos telescópios). 

Trata-se de uma prova direta do movimento da Terra porque ela pode ser observada visualmente por meio de telescópios. Além disso, a dimensão e forma desses cículos é inteiramente dependente da posição da estrela em relação ao plano da eclíptica e sua distância (quanto mais distante, menor é a amplitude do movimento). O efeito do paralaxe estelar arruinou completamente não só o fixismo do Geocentrismo, mas também com a algumas noções medievais de que a esfera celeste era uma 'parede' onde terminaria o cosmos. 

A detecção do paralaxe estelar só foi possívem em 1806 por G. Calandrelli e sua medida em 1838 por F. Bessel (1784-1846) [4], porque os desvios observados são muito pequenos (da ordem de frações de segundos de arco). Historicamente, a ausência de paralaxe estelar medido na era pré-telescópica foi triunfalmente anunciado como prova do Geocentrismo por Tycho Brahe (1746-1601), um dos primeiros a reconhecer que o paralaxe deveria existir e a confirmar sua 'inexistência' no Sec. XVI. Como se vê, Brahe em seu século estava mais informado do que Humboldt no Sec. XIX.

Desnecessário dizer que os astrônomos procuraram em vão, entre esses séculos, pelo paralaxe, não porque queriam "provar" que a Terrra se movia - o que, depois de I. Newton (1642-1726), tornou-se fato consumado nos círculos acadêmicos - mas porque queriam medir as distâncias das estrelas. Mais de trezentos anos foram necessários para que se desenvolvesse os métodos apropriados de detecção do paralaxe estelar. O feito teve seu clímax com a publicação em 1997 de um catálogo com 118 mil estrelas por meio do satélite HIPPARCOS (High precision parallax collecting satellite) [5] que, utilizando o método do paralaxe e espectroscopia, pode determinar a distância, posição e velocidade das estrelas contra o funto extragalático usando a Terra móvel como plataforma de medida.

II - A ABERRAÇÃO DA LUZ

Em uma experiência quase pueril, alguém fixado ao solo que observe uma chuva a cair horizontalmente verá os pingos d'água mudarem de direção conforme esse observador se mover (Fig. 1). A direção dos pingos seguirá o movimento do observador porque, em seu referencial, os pingos ganharão uma componente horizontal proporcional à velocidade do observador, mas em direção oposta. Como os pingos, antes horizontais, tornam-se inclinados, eles são "desviados" ou melhor, sofrem "aberração".

Fig .2 Ilustração do site "Astrometria" da UFRGS em que se desenha de forma clara o fenômeno da aberração dos pingos d'água e seu equivalente da luz com um telescópio fixo na Terra que se move. 
Mas a aberração dos pingos d'água da chuva também pode acontecer com a luz. Nesse caso, o fenômeno é chamado "aberração da luz" e consiste em um aparente desvio de direção do feixe luminoso conforme o movimento do observador (Fig. 2). Se o Geocentrismo estivesse certo, um observador na Terra fixa não poderia jamais observar qualquer tipo de aberração da luz. Mas não é isso que acontece, sendo a aberração da luz a segunda prova direta do movimento da Terra. Talvez o fenômeno da aberração da luz não tenha passado desapercebido em alguma leitura científica de OdC que, em seu vídeo [1], chega a confundir o fenômeno com a medida da invariância da velocidade da luz (que é um fenômeno completamente distinto):
Com relação à origem da teoria da Relatividade, o que aconteceu foi o seguinte, no fim do século passado, na passagem do século, uma dupla de cientistas, Michelson e Morley, que disseram o seguinte: se a Terra se movem em torno do Sol, então deve haver diferenças na velocidade da luz em vários pontos da Terra, conforme as várias estações do ano. E eles mediram isso milhares e milhares e milhares de vezes e viam que não mudava nada. Então, das duas uma: ou a Terra não se move, ou é preciso modificar a física inteira. Então, um cidadão chamado Albert Einstein viu isso e achou que era preferível modificar a física inteira só para não admitir que não havia provas do Heliocentrismo. [1]
O fenômeno da aberração consiste no desvio aparente da posição de todas as estrelas, e é formado por várias componenentes: devido à translação da Terra em torno do sol (a chamada "aberração anual", que varia com as estações do ano), devido à rotação da Terra em torno de si (a chamada "aberração diurna") e devido à translação do sistema solar em torno do centro galático (a chamada "aberração secular"). A aberração da luz não só demonstra que a Terra se move, como também que o sistema solar inteiro move-se, de novo, em relação ao fundo extragalático, localizado a distâncias inconcebíveis.

Historicamente, o fenômeno da aberração da luz foi confundido com o do paralaxe, porque os devidos desse último efeito são maiores e mais fáceis de medir do que os desvios do primeiro.  Medições feitas ainda no Sec. XVII [5] por J. Flamsteed (1646-1719) foram finalmente explicadas em termos de aberração da luz por J. Bradley (1693-1762) em 1727, que demonstrou que a aberração era uma evidência adicional dos vários movimentos de um observador que, fixo na Terra, se move com ela.

É importante ressaltar que a partir da explicação de Bradley diversas teorias surgiram para explicar a aberração da luz em termos do movimento da Terra no éter universal [7], o que culminou com teoria da Relatividade. Essa teoria foi desenvolvida por vários cientistas europeus na virada do Sec. XIX para o Séc. XX e nada tem a ver com uma tentativa de ocultação do Geocentrismo.

III - O PÊNDULO DE FOUCAULT

Fig. 3 Ilustração do movimento do pêndulo de Foucault provida pela Wikipedia. Como a plataforma em que se fixa o pêndulo se move (a Terra), observadores nela verão um lento movimento do plano de oscilação (chamado de "precessão") .
Para um geocentrista rigoroso, ciente de seu conhecimeno milenar, a Terra está fixa no Universo, tanto assim que todas as estrelas prestam-lhe tributo e giram a sua volta. A primeira fase da queda do Geocentrismo foi levado a cabo por N. Copérnico (1473-1443), que não achou justo que a Terra, sendo muito menor do que a esfera celeste, tivesse que permanecer fixa, enquanto que o céu, muito maior, girasse [8].  Alguns dizem que a prova definitiva do movimento da Terra - primeira centelha da libertação do fixismo geocêntrico - veio tarde demais, apenas em 1851. Nesse ano, em um interessante e simples experimento, J. L. Foucault (1819-1868) demonstrou de forma direta o movimento de rotação da Terra por meio de um pêndulo fixado no interior do Observatório de Paris.

O experimento foi replicado no grande Pantheón em Paris algumas semanas depois pelo próprio Foucault [9] e, desde então, é um demonstração fácil de se ver em inúmeros museus de ciência e laboratórios no mundo. Uma explicação simples está ilustrada na Fig. 3. A base que sustenta o pêndulo se move (porque a Terra gira!). O plano de oscilação - devido à inércia - mantem-se fixo, o que faz com que observadores na plataforma vejam o movimento desse plano, que é consequência do movimento da Terra. Em termos mecânicos, o pêndulo de Foucault demonstra a existência de pseudo forças em um referêncial chamado "não inercial", o próprio referencial da Terra movente. O movimento do pêndulo (frequência de precessão) não depende da longitude do observador, mas apenas de sua latitude, que é máxima nos polos como é fácil de se ver. Por outro lado, se a Terra é admitida fixa conforme o Geocentrismo, o movimento do pêndulo teria que ser explicado por forças adicionais de origem miraculosa.

IV - AS FASES DE VÊNUS

Quando se fala em "Geocentrismo" é preciso especificar qual dos modelos antigos se pretende defender como alternativo ao helicentrismo. O sistema Ptolomaico foi o mais usado na antiguidade e poderia ter sido substituído pelo sistema "Ticônico" [9b] não fosse o "golpe helicêntrico". Mas, no sistema Ptolomaico, a posição dos planetas (vistos e entendidos como meras "estrelas errantes" ou pontos de luz moventes porque os antigos não tinham telescópios) era prevista até certa precisão [10], com base em um engenhoso sistema de "epiciclos", que obrigava os planetas a girar em torno do nada. Para os chamados "planetas exteriores" (aqueles planetas que estavam localizados além da chamada "esfera" do sol [11]), os epiciclos reproduziam as laçadas planetárias que eram observadas anualmente. Com os planetas interiores - os que se localizavam entre o sol e a Terra - também havia epiciclos conforme mostra a Fig. 4.

Fig. 4 Modelo Geocêntrico "padrão" que contém a Terra em seu centro (à esquerda) em torno da qual giram os "planetas interiores" (mercúrio e vênus). Os "planetas exteriores" são mostrados à direita. Os planetas giram em torno de um ponto vazio em trajetórias que são chamadas "epiciclos". A necessidade desses epiciclos pode ser apreciada na animação da Fig. 7 , que descreve a visão geocêntrica (na parte direita), onde as "laçadas planetárias" são reproduzidas. 
Vênus e mercúrio giravam em torno de centros que giravam em torno da Terra em seu movimento anual, estando localizados além da esfera da lua. Qual não foi, porém, a surpresa de Galileu Galileu (1564-1642), um dos primeiros cientistas na Europa a usar uma luneta para observar o céu, ao observar que vênus tinha fases como a lua, fases que mudavam com os dias. Galileu registrou o aspecto dessas fases em um desenho que ficou famoso e que é reproduzido na Fig. 5.

Fig. 5 Desenhos feitos por Galileu usando seu telescópio das fases de vênus. O dimensão aparente e aspecto da fase indicam claramente que vênus gira em torno do sol. 
O problema do comportamento das fases de vênus é que elas indicavam que esse planeta girava em torno do Sol e não em torno do centro de seu epiciclo interior. A explicação que ocorreu a Galileu está representada no diagrama da Fig. 6. O  tamanho do planeta se reduz à medida e que sua fase se torna "cheia", porque ele está além do sol nesse ponto (o de número 4), e não entre esse a Terra como previsto pelo sistema de Ptolomeu.

Fig. 6 No diagrama à esquerda, vênus em seu epiciclo interior apresentaria fases como respresentadas na parte superior do diagrama, conforme a correspondência numérica indica. Como vênus se move em torno do sol, as fases corretas são as mostradas na parte direita, o que corresponde ao que Galileu observou com seu recém inventado telescópio. 
Se vênus (e mercúrio) giram em torno do sol, então por que os outros planetas giram em torno da Terra? [12] Por que as fases indicam claramente que vênus não tem qualquer epiciclo como descrito pelo sistema geocêntrico? Tais foram algumas das muitas perguntas que Galileu deve ter feito. As fases de vênus sozinhas não mostram que a Terra gira em torno do sol obviamente, sendo mais uma prova que o modelo padrão de Ptolomeu estava errado. Por isso, Galileu se referiu a suas descobertas telescópicas como "assombrosas" [13]. Hoje em dia, qualquer astrônomo amador que dispor de um  telescópio, mesmo que pequeno, pode verificar por si mesmo muitas das descobertas de Galileu.

V - A MECÂNICA CELESTE

Para a ciência, a concordândia entre evidências diretas, não relacionadas entre si, forma uma nova evidência. Ora a primeira evidência indireta (mas nem por isso menos válida) do movimento da Terra é a concordância entre todas as medidas obtidas para os efeitos de paralaxe, aberração da luz, bem como aberração diurna e o movimento do pêndulo de Foucault, o que só pode acontecer porque justamente a Terra é a origem única do movimento. Em suma: os dados colhidos de todos esses fenômenos têm causa óbvia e trivial no movimento da Terra, além do próprio Sol, que também se move carregando junto a Terra e todo o sistema solar.

Um dos argumentos usados por possíveis geocentristas modernos é que "tanto faz" usar o helicentrismo como o geocentrismo. Embora a descrição cinemática dos movimentos possa ser feita em qualquer referencial - no sentido de que a posição e a velocidade das partículas (planetas, cometas, asteróides etc) é descrita com grande precisão por um observador fixo ou em movimento em relação a um referencial dado - isso não implica na "equivalência dinâmica" entre referenciais. Funções matemáticas contêm o ferramental que permite mudar de um referencial a outro e, de fato, quando astrônomos calculam a posição dos planetas no céu eles o fazem por meio de transformações entre sistemas em que o último é o chamado "referencial geocêntrico" (porque é o referêncial final cômodo para observadores na Terra). Entretanto, como afirmado, trata-se apenas de uma descrição puramente cinemática. Os sistemas referenciais nada tem a ver com "visões do mundo" ou "imagens do universo". Como vimos no caso das fases de Vênus, as posições concordam dentro de certa margem de erro desde que os planetas sejam descritos como meras partículas - sem se importar com o aspecto que eles se mostram ao telescópio.

Fig. 7 Ilustração tirada do site malinc.se que demonstra a diferença entre as imagens "helicêntrica" (à esquerda) e "geocêntrica" (à direita) para um observador que se situasse "fixo" sobre o sol e sobre a Terra, respectivamente. Embora as descrições sejam equivalentes cinematicamente (precisão garantida na posição pelos dois sistemas referenciais, onde os planetas são meras partículas), elas não são equivalentes dinamicamente. Newton unificou a visão da física ao demonstrar que o movimento se deve apenas à ação de uma força que liga o sol aos planetas (a chamada "força da gravidade"). Se  força ou impulso forem usados na descrição geocêntrica, vemos planetas a se moverem por meio de forças complexas e inexplicáveis, que não têm origem causal definida.
A Fig. 7, à esquerda, ilustra o que um observador fixo acima do sol veria (em algum ponto de uma linha perpendicular ao plano da eclíptica) a posiçao dos planetas com o passar do  tempo.  Na parte da direita, vê-se a mesma descrição para um observador que estivesse fixo em uma linha perpendicular à ecliptica, mas centrada na Terra. Na visão "heliocêntrica", o observador veria todos os planetas girarem em torno do sol, como causa de uma única força que se dirige para o centro desse sistema (o sol), e que é inversamente proporcional ao quadrado da distância. Na visão "geocêntrica", os planetas descreveriam complexas curvas, que são inexplicáveis por qualquer tipo de combinação de forças simples. A ação de uma força (a gravidade) faltava para a física aristotélica, o que permitiu que os antigos aceitassem por tanto tempo o geocentrismo, porque o que mantinha os planetas em suas posições era a própria disposição particular da estrutura mecânica (esferas de cristal etc) do Universo tal como imaginado por eles.

Assim, toda a mecânica provê uma prova indireta ligada ao conhecimento ou à existência forças simples que explicam, unificam e prevêem esses e outros fenômenos: o movimento e variação aparente de tamanho de cometas, o brilho dos planetas e outros corpos celestes, a precessão e nutação da esfera celeste com o passar dos anos, a posição de asteróides e cometas e, finalmente, o complexo movimento de sondas espaciais e satélites artificiais. Distanciando-se da visão puramente cinemática, o telescópio demonstrou inúmeros outros fenômenos e aspectos dos planetas que só podem ser explicados pelo Helicentrismo. Todos esses fatos formam um rico "concerto" de fenômenos a evidenciar o movimento da Terra e tal evidência não é menos importante que as provas diretas.

Na verdade, a mecânica celeste não advoga que todos os planetas giram em torno do sol, mas sim em torno de um centro comum - o chamado "baricentro do sistema solar" [14] - em torno do qual o próprio sol inclusive gira! Entretanto, o raio da órbita solar é tão pequeno - porque a massa do sol é muito grande em comparação com todos os planetas juntos - que seu movimento pode ser desprezado.

Conclusões

É evidente que jamais teremos uma "prova sensível, democrática e popular" do movimento da Terra - tal como as provas da existência e comportamento de coisas e objetos da vida comum que nos alcançam pelos sentidos ordinários. Para isso, todos nós teríamos que sair da Terra e permanecer imóvel em algum referencial distante dos planetas em pleno vácuo e ver com nossos próprios olhos esse movimento, o que é impossível. Assim, não é difícil avaliar porque as provas discutidas aqui são  tão importantes e mais que suficientes para convencer sobre a realidade do movimento da Terra. De resto, um curso inteiro de física ou astronomia é necessário para se avaliar inúmeras outras evidências que não foram apresentados aqui.

Apresentou-se aqui uma compilação de conjunto mínimo de provas que demonstram a realidade do movimento da Terra. É bem provável que esteja certa a crença de que Galileu, Copérnico e Kepler não puderam dar "provas definitivas" como exigidas pela Igreja para movimento da Terra. Entretanto,  isso é irrevante: a visão do mundo mudou em direção ao Heliocentrismo ainda em pleno Sec. XVII mais na cabeça dos físicos depois de aprenderam a nova mecânica de Newton, do que na daqueles astrônomos a quem essas teorias devem ter faltado.

Alguns historiadores, no afã de apresentar um quadro mais favorável à Igreja no famoso julgamento de Galileu e no que aconteceu após descoberta do telescópio, podem afirmar que "provas" do movimento da Terra só seriam "definitivas" no Séc. XIX. Tal descrição não é inteiramente justa, pois a física Newtoniana, fornecendo explicações para inúmeros fenômenos, exigia que a Terra se movesse. Mesmo assim, na virada de 1699 para 1700, Flamsteed já dispunha de dados - interpretados incorretamente é verdade - da aberração da luz e que demonstravam o movimento da Terra. Como a mecânica de Newton representa um dos grandes triunfos da ciência - pela explicação unificada de milhares de fenômenos  - é claro que tal visão se consolidou. Apenas pessoas alienadas no Sec. XXI podem imaginar ser possível desbancar, com simples retórica e análise histórica mal feita, a física Newtoniana - no contexto dos fenômenos que ela pretende explicar [15], o que inclui o movimento dos planetas, a Terra inclusive. E pur si muove.

A mudança ou "golpe" heliocêntrico representou uma revolução irreversível no pensamento humano. Se antes o Universo era visto como fechado e limitado por esferas de cristal que sustentavam os planetas, no heliocentrismo, o Universo tornou-se ilimitado e governado por forças unificadoras do movimento. Conceitos como força, impulso, centros de massa etc não existiam na física Aristotélica. A visão se alargou de fato quando foram desenvolvido métodos mais sensíveis para se medir inúmeros fenômenos, como é o caso do paralaxe estelar no Sec. XVIII, o que era inacessível aos antigos da era pré-telescópica, Brahe inclusive. Provavelmente, os antigos eram pessoas tão inteligentes e perspicazes quanto os cientistas modernos, porém, a eles faltavam os meios de medida e as teorias apropriadas.

Cinematicamente, nos sistemas "heliocêntricos" e "geocêntricos" - onde planetas devem ser descritos como meros pontos de luz - podem ser usados de forma intercambiável por meio de transformações entre sistemas de referência. Há que se distinguir entre sistemas de referência e "visões do mundo" - como teorias cosmológicas feitas para se explicar imagens de Universo. Mas, mesmo os sistemas de referência não são equivalentes dinamicamente. A relatividade especial demonstrou a equivalência das descrições cinemáticas e dinâmicas entre referências inerciais, mas não para referenciais como a Terra, que se movem com aceleração. Assim, o movimento da Terra pode ser diretamente acessado por meio de dispositivos que mostram a ação de acelerações adicionais que só aparecem na superfície da Terra porque essa se move. O fato de existir componentes de aceleração não gravitacional (que são 0,35% da aceleração da gravidade) indica que a Terra se move como demonstrado pelo pêndulo de Foucault. Assim como há aceleração devido ao movimento de rotação (que causa o giro das "estrelas fixas"), também há aceleração devido à translação do planeta em torno do sol (que é de muito menor intensidade, mas que pode ser detectada como, por exemplo, nas órbitas de satélites artificiais da Terra). Ao contrário do que diz OdC (pelas citações transcritas do vídeo), a relatividade de Einstein sepultou para sempre a ideia de Terra fixa, e não demonstrou qualquer intenção de tornar "relativas" as descrições helicêntricas e geocêntricas como o nome "relatividade" pode levar a se supor.

Como as acelerações devido ao movimento da Terra são muito pequenas, os seres humanos não conseguem senti-las, diferentemente da aceleração da gravidade, que é a componente mais intensa. Dispositivos especiais e sensíveis são assim necessários para se medir essas componentes de acelerações.

O desenvolvimento científico não só aguarda pelo surgimento de teorias corretas, mas também pelo desenvolvimento de meios de detecção apropriados sem os quais é impossível validar tais teorias. Nossa visão se expande pela ampliação de nossa capacidade de observação levada a cabo por tais instrumentos, que são a base fundamental de toda ciênca hodierna.

Sugestão de leitura

Consulte o excelente livro de Alexandre Koyré (2006), "Do Universo fechado ao Mundo Infinito", Editora Forense Universitari. ISBN: 8521803915.

Comentários e referências

[1] Terra plana 1 - Heliocentrismo o maior engano da humanidade:  https://www.youtube.com/watch?v=b7dhVUVs8Ag&t=399s (acesso em janeiro de 2018)

[2] O fato dela existir ou não é irrelevante. Embora a autoridade científica possa desempenhar papel importante no desenvolvimento da ciências, depois do estabelecimento de um paradigma científico (como é o caso do heliocentrismo), essa autoridade deixa de ter qualquer importância. Não é o caso de Humboldt, que faleceu em 1859 sem conhecer profundamente do assunto porque não era astrônomo, embora, na qualidade de "polímata" tenha escrito coisas sobre Astronomia. Assim ele provavelmente desconhecia a existência do paralaxe estelar medido por Bessel e quiça o próprio pêndulo de Foucault.

[2b] The Principle Movie trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=p8cBvMCucTg  Uma coisa é admitir problemas e inconsistências nas modernas teorias cosmológicas. Outra bem diferente é interpretar de forma apressada que tais inconsistências - fruto muito mais de severas limitações nos meios de medição do que em evidências que seria providas por esses meios - apontam para a conclusão de que a "Terra é o único lugar especial do Universo", numa tentativa forçada de se resgatar uma tradição religiosa (a saber, a visão cristã medieval do Universo). A alienação aqui é patente porque ela despreza montanhas de evidências que demonstram o contrário, além de estar completamente fora do contexto teórico elementar básico de física. A enganação tem diversos defensores esforçados e páginas na web como:
Nessa última página, em uma linguagem típica de teórico de conspiração, temos uma grande variedade de referências e citações contra o Helicentrismo, inclusive à tal referêncai a Humboldt.

[2c] É importante ressaltar que, no Novo Testamento, nenhum dos autores coloca qualquer palavra ou frase referente à Astronomia, Cosmologia etc na boca de Jesus ou de seus apóstolos. O Cristianismo, tal como entendido em sua versão inicial ou "primitiva", nunca se ocupou de problemas astronômicos.

[3] Conforme citado em "What are the properties of stars other than the sun?"

[4] Fernie, J. D. (1975). The historical search for stellar parallax. Journal of the Royal Astronomical Society of Canada, 69, 222.

Disponível em: http://articles.adsabs.harvard.edu/full/1975JRASC..69..222F/0000230.000.html

[5] É importante dizer que a órbita do Hipparcos era geocêntrica, isto é, movia-se em torno da Terra. O paralaxe foi medido usando como linha de base a própria órbita da Terra.

[6] Um histórico da suposta medida de paralaxe feita no Séc. XVII por Flamsteed pode ser lido em:  Williams, M. E. W. (1979). Flamsteed's alleged measurement of annual parallax for the Pole Star. Journal for the History of Astronomy, 10(2), 102-116. 



[7] O objetivo não era saber se a Terra se movia ou não - fato considerado consumado - mas entender fisicamente que natureza ou propriedades da luz dariam origem ao próprio fenômeno da aberração.

[8] Ainda usando concepções Aristotélicas, Copérnico argumentou que o Empíreo, sendo a morada de Deus e sendo esse o Criador, deveria antes permanecer fixo, enquanto que a Terra deveria girar em torno de si e do Sol. Como se vê, mesmo o Heliocentrismo não dispensou argumentos de natureza teológica. Por causa disso, Copernico foi chamado de "idiota" por reformadores protestantes, como o próprio Martinho Lutero. Ver nossa sugestão de leitura Koyré (2006).

[9] Ver: Aczel, A. D. (2004). PENDULUM - Léon Foucault and the Triumph of Science. Uma revisão dessa obra pode ser lida aqui.

[9b] Alusão a Tycho Brahe. Um manuscrito de um tal Martianus Capella (aproximadamente 410 d. C.) chamado "De nuptiis Philologiae et Mercurii" apresentou um sistema semelhante ao Ticônico em pleno Sec. V. Entretanto, conforme mostrado por Eastwood (Eastwood, B. (2007). Ordering the heavens: Roman astronomy and cosmology in the Carolingian renaissance. Brill.), tal sistema não se baseou em nada conhecido na antiguidade e parece  ter sido criado pela cabeça do próprio Capella. Não se sabe se Tycho ou Galileu chegaram a conhecer essa representação que foi reproduzida em outra obra em 1573 por Valentin Naboth.

[10] A contrário do que se diz, essa precisão não era excelente, mas dependia de quantos epiciclos eram usados para reproduzir o movimento retrógrado dos planetas, bem como explicar o movimento de Mercúrio e Vênus. Modernamente, os epiciclos podem ser entendidos como correções harmônicas de ordem elevada no movimento básico circular.

[11]  Para a Astronomia pré-Copernicana, os planetas se moviam presos à "esferas" e não órbitas. Esse movimento não era produzido por forças, mas produto de um engenhoso conjunto de "esferas de cristal" através das quais se podia ver o Empíreo.

[12] Da mesma forma, hoje em dia foram descobertos inúmeros planetas em torno de outras estrelas. A visão de mártir e herege Giordano Bruno (1548-1600) torna-se a cada dia uma realidade.

[13] Ele publicou suas descobertas em um livrinho chamado "A Mensagem das Estrelas" ou Sidereus Nuncius em 1610.

[14] Tal centro dá origem a um novo sistema: o sistema de referência do baricentro. Ver: Martin, C. F., Torrence, M. H., & Misner, C. W. (1985). Relativistic effects on an Earth‐orbiting satellite in the Barycenter Coordinate System. Journal of Geophysical Research: Solid Earth, 90(B11), 9403-9410.

[15] "Assim no céu como na Terra". Deve-se enfatizar que a mudança de visão do mundo com o Renascimento também derrogou a crença de que o céu era região especial diferente da Terra. Com Newton e R. Descartes, as mesmas leis que regem fenômenos terrestres foram também atribuidas aos fenômenos celestes. A exatidão desse princípio tornou-se evidente a partir da previsão de novos fenômenos e alta precisão em medidas em ambas regiões.